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Vera Silvestre Videira Visitante
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Colocada: Qua Abr 19, 2006 11:41 pm Assunto: Alfaiates, terra de Riba Côa |
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Alfaiates
De origens antiquíssimas, Alfaiates, terra de Riba Côa, destaca-se pelo castelo manuelino inacabado, testemunho do seu papel de praça forte onde foi Governador Brás Garcia Mascarenhas, o poeta patriota de Avô.
Herança espanhola
Alvo de sucessivas invasões, Castillo de la Luna foi castelhana até que em 1297 integra o território português pelo Tratado de Alcanizes.
A ascendência espanhola verifica-se ainda hoje na afeição pelo país vizinho, pelo vocabulário dos mais velhos, (a maior parte dos habitantes daquela terra) e pela forte ligação a Cidade Rodrigo em termos comerciais. Ti Ana Cana, Ana Esteves, hoje com 90 anos, conta que para libertar o marido acusado de contrabando, trocou de roupas com ele ficando ela no cárcere, vestida de homem, nos tempos de miséria quando de Espanha vinha o pão.
Também durante a Guerra civil espanhola, muitos por ali se refugiaram, perseguidos pela Guarda Civil. Joaquim Videira protagonizou um episódio que contava aos descendentes. Certo dia, três homens espanhóis, com o terror no rosto, pediram-lhe a salvação, pois vinham a ser perseguidos. Sem hesitar, introduziu-os na “loja” e cobriu-os de palha. Entretanto, quando chegam os algozes, o meu avô, com a maior calma e altivez características daquelas gentes, manda-os entrar e procurar à vontade…
Anos mais tarde, os três procuram-no para lhe oferecer um almoço como reconhecimento.
No tempo dos Reis
Alfaiates, já da coroa portuguesa, foi palco de casamentos reais. Na Igreja da Misericórdia que fica junto ao pelourinho, D. Dinis, o rei trovador que confirmou a Carta de Foros e Costumes, recebeu Isabel, a infanta de Aragão; seu neto D. Pedro, a infeliz D. Branca e a “fermosíssima Maria” partiu para Castela. De Alfaiates, o povo manifestou-se contra D. Fernando “Que todo o reino pôs em grande aperto” (“ Os Lusíadas”)
O Castelo
Zona de defesa, tem a primeira fortificação nos finais do século XII ainda no tempo em que era Castela.
Foi no tempo d’El Rei D. Manuel que se iniciou a construção do actual castelo nunca terminado devido ao domínio filipino. O portão é encimado por um escudo em tom terracena, por cima uma coroa e de ambos os lados duas cruzes e duas esferas armilares. No vértice do portão, uma cruz em pedra com a inscrição: “Cemitério”, provavelmente do sec XIX, altura em que deixou de ser praça de armas. Ainda nos anos 70 se encontravam no recinto interno restos de ossos, descurados na trasladação para o actual cemitério.
A religião
Agosto é o mês em que Alfaiates renasce com a vinda dos emigrantes mais velhos e o culto da Nª Srª da Póvoa que, num misto de religiosidade e exibição, decorre no terreiro onde fica situado o santuário da Sacaparte, templo datado do sec XIV, ao lado do convento em ruínas.
Conta o povo que durante as invasões francesas, cuja crueldade foi transmitida pela tradição oral, muitas jóias da Igreja foram enterradas para que os saqueadores do general Massena não as encontrassem. A cruz, de tão bem escondida, nunca mais foi encontrada.
A imagem da Srª da Sacaparte, bem ao estilo Barroco representa uma senhora e o seu menino principescamente vestidos. Foi a uma antepassada que, segundo a lenda, o fidalgo castelhano Álvaro Nunes de Lara, nos tempos de D. Dinis pede ajuda, dizendo: “Saca-nos a boa parte”, vindo daí o nome “Sacaparte” |
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Iara
Registo: 07 Fev 2006 Mensagens: 77 Local/Origem: Viana do Castelo
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Colocada: Sex Abr 21, 2006 4:17 pm Assunto: A Lenda ( ou não ) da Torre de Castelo de Luna |
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O Reino da Galiza e Portugal foi formado em 1065 depois do Conde de Portugal declarar a sua independência, na sequência da morte de Fernando I de Leão e Castela.
Em 1063 Fernando I tinha dividido o seu reino entre os seus filhos. A Galiza foi entregue a Garcia II da Galiza. O então Conde de Portugal, Nuno Mendes, aproveita as tensões internas causadas pela guerra civil entre os Filhos de Fernando para finalmente se declarar a si próprio independente .
No entanto, em 1071 o Rei Garcia II enfrenta o Conde Nuno Mendes na batalha de Pedroso, derrota-o e mata-o, anexando o seu território e acrescentando o título de Rei de Portugal ao de Rei da Galiza.
Em 1072 Garcia II foi por sua vez derrotado pelo seu irmão Sancho II de Castela. No mesmo ano, depois de Sancho assassinar Afonso VI, veio a tornar-se Rei de Leão e Castela, tendo então colocado Garcia II de Galiza e Portugal em prisão perpétua e proclamando-se a si mesmo Rei da Galiza e Portugal, reunificando o reinado de seu pai. Desde essa época a Galiza permanece parte do Reino de Castela e Leão embora sob diferentes graus de auto governo. No entanto esta situação não duraria muito tempo, o Reino veio a tornar-se o degrau para o futuro nacionalismo português sub a égide de Henrique, Conde de Portugal.
E diz a Lenda que foi em Alfaiates, ou na época em Castelo de Luna que Garcia II foi colocado a ferros, na Torre de Menagem do Castelo, ali permanecendo até à sua morte.
Tive a sorte de, no Verão de 2004, conhecer Alfaiates e de forma privilegiada.
Alfaiates e Sacaparte foi-me apresentada pelo Sr. Padre César a quem manifesto aqui os meus sinceros agradecimentos. Não fosse a sua simpatia e nunca teria a oportunidade de ver os frescos atrás do Altar Mor de Sacaparte, ouvir a história da fonte tão ciosa e justamente guardada pelos habitantes de Alfaiates, depois das várias tentativas de furto.
Em Alfaiates respira-se história, revivem-se lendas e acontecimentos. D. Dinis, D. Isabel de Aragão, o tratado que viria a alterar as nossas fronteiras. Um passado tão longínquo e no entanto tão presente. Retalhos da história de um país no tempo em que o seu interior era importante.
Hoje parece já não o ser, infelizmente. Custou-me, quase me doeu verificar o estado do castelo de Alfaiates, doeu-me o seu estado de abandono e degradação, e sinto-me culpada na parte que me cabe ao ver abandonada a nossa memória colectiva enquanto povo, enquanto nação, enquanto identidade, alma portuguesa.
Aquelas terras foram conquistadas também com sangue, vertido por antepassados que parecemos desejar esquecer, mas a quem devemos o que temos e o que somos.
Alfaiates merece mais do poder Central. Merece ser requalificada, merece renascer e merece a oportunidade de poder contar a sua rica história, o castelo pode contar as suas lendas, até a de Garcia II o 1º a usar o título de Rei de Portugal, as lendas tenham um fundo de verdade, ou façam apenas parte de um imaginário romantizado e por vezes trágico, também atraem.
Quanto a si Vera, deixe-me agradecer-lhe. O seu texto sobre Alfaiates fez-me lá voltar e rever mentalmente a vila, o mosteiro e aquele Verão.
Muito obrigada
Iara |
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Iara
Registo: 07 Fev 2006 Mensagens: 77 Local/Origem: Viana do Castelo
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Colocada: Sex Abr 21, 2006 5:09 pm Assunto: Afinal não é apenas Lenda |
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No 1072, García voltará a Coimbra mediado o mes de novembro e viaxou a León entrado o novo ano, chamado por seu irmán. Pero foi preso o 13 de febreiro do 1073 e pechado no castelo de Luna, en plena montaña leonesa de Babia. Alí permaneceu até o seu pasamento en marzo do 1090.
Traído desde "http://gl.wikipedia.org/wiki/Garc%C3%ADa_de_Galicia"
Category: Historia de Galicia |
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Luis Moura Serra
Registo: 08 Dec 2005 Mensagens: 494 Local/Origem: Maia
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Colocada: Qua Set 20, 2006 12:46 am Assunto: Alfaiates: Carinho e desprendimento. |
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O meu primeiro “encontro” com Alfaiates dá-se quando, a determinada altura da minha pesquisa genealógica, descubro que um dos meus antepassados era oriundo desta localidade.
A curiosidade sobre Alfaiates redobrou quando, na continuação da pesquisa genealógica, fui confrontado com o facto de o meu antepassado Manoel Fernandes ter conhecido a sua mulher em Viana do Castelo, ter ido casar a Alfaiates e depois retornado a Viana do Castelo para, com Antónia Luísa constituir família na capital do Alto Minho. Note-se que este casamento decorreu em 1850 e que a viagem entre as duas localidades era, com certeza, algo de complicado.
Foi para mim um mistério que ainda hoje não consegui desvendar, mas que muito contribuiu para que tivesse pesquisado na Internet, sobre Alfaiates.
Alfaiates andou sempre no meu imaginário, mesmo depois de ter conhecido a Vera Silvestre, oriunda de lá, num almoço do Clube de Genealogia e mesmo depois de ter conhecido Alfaiates, com visita guiada pelo Senhor Padre César que, inclusivamente, me mostrou Sacaparte.
Para mim Alfaiates faz parte do meu ser, pois os meus antepassados moraram lá e um pouco de mim vem daquela localidade. De certa forma, sinto-me como se fosse natural de Alfaiates.
No entanto, após a leitura do texto da Vera, que gentilmente acedeu ao meu convite para escrever sobre a sua terra natal, apercebi-me que ser e ter sido de Alfaiates, não são sinónimos.
A forma vivida com que descreveu Alfaiates, os pormenores, as vivências da sua família, fizeram-me ter consciência de que nunca lá vivi, e que pouco sei sobre as gentes, sobre os meus antepassados, as suas vivências, que foram embora com eles e a mim me resta o facto de que as suas vidas contribuíram, pelo menos, para a minha existência física, e, quem sabe, para a forma como analiso a vida, pois não sei que valores, pelos quais se regiam, terão chegado até mim.
À Vera agradeço esta nova visão sobre Alfaiates, que me permite agora olhar para esta freguesia do Sabugal com maior carinho e mais desprendimento. _________________ Luis Moura Serra
Hoje penso em retrospectiva
Valeu a pena! Valeu a pena! Valeu a pena! Valeu a pena! |
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Leonel Borges Salvado
Registo: 19 Out 2009 Mensagens: 11 Local/Origem: Valpaços/Vila Real/Portugal
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Colocada: Ter Dec 29, 2009 12:56 am Assunto: Alfaiates, terra de Ribacôa |
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Nunca estive em Alfaiates. Até à minha primeira visita a esta conversa sobre Alfaiates, pouco sabia, aliás quase nada para ser absolutamente sincero, a respeito das referências históricas que nela são feitas relativamente a esta aldeia, a não ser o que dela se conhece num contexto mais vasto que é o da História de Ribacôa. Depois disso, e motivado por essas referências, resolvi fazer algumas pesquisas sobre a sua História e, à medida que ia desenvolvendo essas pesquisas, vi-me encantado com os resultados que ia obtendo. Gostaria de visitar a «aldeia histórica» de Alfaiates e de poder desfrutar um pouco da sua atmosfera histórica, admirar o santuário de Sacaparte e de poder deixar-me transportar no tempo e contemplar, para além do castelo manuelino, a silhueta do que podia ter sido «Castillo de la Luna», depois castelo primitivo de Alfaiates.
Visitar Alfaiates representa para mim, agora mais do que outrora, a satisfação de um desejo há muito acalentado que é o de sentir o prazer de caminhar sobre o mesmo terreno que um dia viu «renascer» a enigmática Irmandade de Riba Côa (eis outro interessante tema a abordar neste Fórum!), de que esta aldeia foi um dos seus sete concelhos congregados perante as incertezas do destino que a sua integração na soberania portuguesa, após 1297(tardia?), lhes podia reservar, num movimento que me parece ser um bom exemplo do espírito gregário do seu povo na Idade Média. Tal é o que se pode depreender de alguns documentos dos capítulos especiais de Cortes em chancelarias de vários monarcas que se guardam no Instituto dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo, bem como em vários outros arquivos e bibliotecas do país onde também se guardam manuscritos relativos a petições ou representações em Cortes de concelhos do distrito da Guarda, tais como o Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Lisboa, o Arquivo Histórico Municipal do Porto e a Biblioteca Municipal de Viseu. Alguns destes documentos traduzem toda a verdade por detrás do mito concebido acerca de Ribacôa, levianamente metaforizado de «filho mais novo de Portugal» e uma parte de toda essa verdade é que, Ribacôa foi antes um «enteado da Pátria lusa» que começou por ser, inegavelmente, acarinhado por D. Dinis, para depois ser enjeitado pelos monarcas subsequentes da primeira dinastia e o primeiro da de Avis, D. João I. Passadas as piores provações das guerras com Castela, as coisas não melhoraram para os pobres habitantes desta região que se viram sujeitos, logo após a morte daquele monarca, à prepotência dos fidalgos e barões que cometendo todo o tipo de arbitrariedades contra os seus mais sagrados foros generosamente confirmados por D. Dinis, nomeavam alcaides sem escrúpulos, cujas atrocidades chocaram os religiosos do Convento de Santa Maria de Aguiar que registaram os factos e dirigiram protestos à Coroa. Tornaram-se muito conhecidos por actos dessa natureza alguns fidalgos como Vasco Fernandes Coutinho, D. Duarte de Meneses e o famigerado João de Gouveia, alcaide-mor de Castelo Rodrigo. Segundo Humberto Baquero Moreno (A Irmandade de Ribacôa – Novos documentos, FLUP), uma queixa muito generalizada da Irmandade de Ribacôa era a de que, «ao abrigo da protecção desses alcaides», muitos homens se recusavam a pagar fintas e talhas, portagens e «montados», o que prejudicava os concelhos e ia contra as normas superiormente confirmadas para todos os lugares da Irmandade de Ribacôa.
Este sentimento de injustiça também está implícito no teor do Capítulo especial apresentado pelo concelho de Alfaiates nas Cortes de Lisboa de 1459, onde o seu procurador, Afonso Lopes, se queixava, perante Afonso V, da descriminação a que vinham sendo sujeitos os seus moradores, desde longa data, comparativamente aos dos concelhos limítrofes de Sabugal, Sortelha, Guarda, Vilar Maior e Castelo Bom, que não eram obrigados a pagar portagem em todo o reino. O procurador de Alfaiates requereu e obteve do rei o mesmo privilégio. Nas mesmas Cortes, o procurador recordava ao monarca o estado de ruína, despovoamento e pobreza causado pelas guerras com Castela (certamente referindo-se às guerras fernandinas e da Independência), acrescentado que essa situação obrigou os seus residentes a fazerem-se, desde tempos antigos, usufrutuários de «maninhados», eximindo-se, por isso, ao pagamento de fintas, o que revertia em benefício da arca do concelho. Argumentando ser a única fonte de recursos do concelho, que continuava pobre e despovoado, Afonso Lopes apelou ao rei, em nome dos moradores, para que essa tradição lhes fosse confirmada como mais um privilégio, no que também foram contemplados.
Acresce que outra das prioridades que constavam da lista de apelos da Irmandade e dos procuradores dos concelhos de Ribacôa nos meados do século XV, era o da ajuda régia para as obras dos castelos, muros e pontes arruinadas por causa da guerra. Neste sentido se pronunciaram os procuradores de Castelo Rodrigo, por exemplo, nas Cortes de Évora de 1447.
Ora, por ser talvez caso para subscrevermos (a jeito de graça!) o provérbio satírico do espanhol Jorge Santayana, pelo qual “aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo” (também já vi esta frase atribuída a Simon Wiesenthal!), tenho andado a adiar a minha desejada visita a Alfaiates, pois a localidade parece estar, mais uma vez, em maus lençóis, desta feita pelo estado de ruína e abandono do seu castelo a que a Iara se refere neste Fórum, reportando-se à visita que aí fez em 2004, estado esse que infelizmente se tem agravado, como vou constatando através das notícias que têm corrido em vários meios de informação disponíveis na Net desde o mês de Junho de 2009, e até pelo próprio site oficial da respectiva Junta de Freguesia.
A 16 de Junho a Capeia Arraiana dava o grito de alerta, informando os sabugalenses da seguinte situação:
Por ordem do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), o Castelo de Alfaiates encontra-se encerrado ao público devido ao perigo eminente de derrocada. Porém as obras de restauro do monumento não se perspectivam.
O jornal A Guarda usava, na sua edição de 13 de Julho, manchete idêntica, e em 27 de Novembro, o Presidente da Junta de Freguesia lamentava a alegada incúria do IPPAR e, perante a impotência dos poderes locais para resolver a situação, desabafava, em desespero, afirmando ser preferível a desqualificação do monumento para que se pudesse fazer aquilo que já devia ter sido feito. Contudo, a 12 de Dezembro a Rádio F fazia alguma «luz ao fundo do túnel» noticiando no seu site que o Director Regional da Cultura do Centro, Pedro Pita, reconhecia que a população de Alfaiates tinha motivos suficientes para protestar, uma vez que o castelo se mantinha fechado ao público, assegurando que a intervenção naquele monumento da zona da raia, vai integrar o programa de actividades da direcção regional da cultura para 2010 e justificando o atraso no processo com as alterações na estrutura do Ministério da Cultura em 2007 e, portanto, isentando o IGESPAR, antigo IPPAR, de responsabilidade nesse atraso. Parece-me razoável a explicação e fiável a promessa.
Gostaria, entretanto, de saber um pouco mais a respeito da História de Alfaiates. Há uma questão que me tem intrigado relativamente à sua toponímia e que gostaria que alguém me elucidasse. A única coisa que a esse respeito tenho por certo, até prova em contrário, é que o topónimo corrente de Alfaiates é de origem árabe, derivado da forma al-haiat, cujo significado tem sido associado a cobra ou víbora (existem outras sugestões extraídas do vocabulário árabe), sendo aliás considerado por alguns historiadores e filólogos como «um dos topónimos de origem árabe que apresentam peso mais signficativo» na região de Ribacôa ( A. M. Balcão Vicente, A “Extremadura Leonesa” – O caso da fronteira de Riba-Côa). Ora, a súbita «renovação» desta designação para o concelho já existente em 1296, em detrimento da forma «Castillo de la Luna» ou «Castelo de Luna», e a sua adopção subsequente em todos os documentos referentes ao respectivo concelho após o Tratado de Alcanices, carece de explicação. Trata-se de uma situação, no mínimo, invulgar! Tal facto, a ser entendido como um simples acto de repúdio provocado por uma consciencialização da alteridade por parte dos alfaiatenses, será tanto mais de estranhar quanto é certo que, como tive o prazer de concluir pelas interessantíssimas notas deixadas por Vera Videira na abertura do presente tópico, a boa relação da população de Alfaiates com os povos do outro lado da linha divisória política perdurou até aos nossos dias, e a antiguidade dessa boa convivência e relacionamento com os seus vizinhos de Castela, sobretudo em tempos de paz, se corrobora pelos estudos de Maria Helena da Cruz Coelho e Miguel Repas para o Centro de Estudos Ibéricos (As petições dos concelhos do distrito da Guarda em Cortes e a política transfronteiriça...), o que já se comprovava nas Cortes de Lisboa de 1459 (a que atrás me referi), onde o procurador de Alfaiates pedia ao rei que lhes fossem passados treslados dos documentos escritos confirmativos dos seus privilégios mais importantes, posto que nas guerras passadas haviam ardido as escrituras que possuiam, e um desses privilégios era o de que «vizinhem(assem) com os castelhanos como elles vizinharem (assem) com elles». Sabe-se assim que os habitantes de Alfaiates tinham «amigável vizinhança» com os moradores de S. Martinho de Trebelho, em relação aos quais, dizia o procurador de Alfaiates -«nos prestamos huuns com os outros como parentes e compadres e amigos»-, rogando-se a D. Afonso V que pudessem entre eles trocar ou vender livremente bens e animais para uma «boda pessoal ou de confraria», o que era uso fazer-se, mas com pesados constrangimentos. O pedido foi atendido e anuido pelo rei, em respeito pela tradição do povo de Alfaiates.
A indicação pela Iara, neste espaço do MarFórum, sobre a existência de um castelo em Alfaiates com o nome de «Castillo de la Luna» em 1072, isto é, muito antes da restauração de Ciudad Rodrigo, em 1161 (que é considerada como o primeiro passo do repovoamento e efectivação da soberania leonesa na região), pareceu-me merecer alguma credibilidade, pois vários historiadores reconhecem a existência para aquela época de comunidades autóctones, tanto em Ciudad Rodrigo como em outros locais de Ribacôa, como é o caso de Luís Filipe Lindley Cintra, (A linguagem dos foros de Castelo Rodrigo...) e José Mattoso (Da comunidade primitiva ao município: o exemplo de Alfaiates…), umas assinaladas em documentos dos séculos IX e X e outras nascidas por essa altura em consequência do repovoamento cristão de Ramiro II e Ordonho III de Leão. Além disso, sabe-se que em meados do século XI a região de Ribacôa havia sido definitivamente conquistada por Fernando I (Fernando Magno), ainda que tenha permanecido, durante perto de um século, como uma área de incursões cristãs e algaras mouras, onde «Castillo de la Luna» poderia ter sido uma das bases dessas incursões. No entanto, o topónimo «Castillo de la Luna» relatiivo a Alfaiates só surge documentado pela primeira vez numa carta de Afonso X de Leão e Castela datada de 1226 (H. Baquero Moreno), ou 1230, que confirma uns foros e costumes aos seus moradores, e Baquero Moreno não encontra nele indícios de que já existisse aí um município. Este mesmo historiador entende que a fundação da localidade ocorreu entre 1209 e 1226.
Peço desculpa, Iara, mas tenho de vestir aqui a pele do “desmancha-prazeres” no que respeita à relação que estabelece entre a trágica biografia de Garcia II de Galiza e Portucale à História de Alfaiates. O «castelo de Luna» que consta na sua citação da versão galega da Wikipédia, segundo a qual, em 1073, Afonso VI de Leão e Castela quis que o seu irmão, Garcia, fosse posto a ferros até ao fim da sua vida, depois de consumado o assassinato do seu outro irmão, Sancho, em Zamora, no decurso do mês de Outubro do ano anterior, não foi o «Castillo de La Luna» de Alfaiates. Na realidade, o excerto citado baseia-se em referências retiradas da Crónica Compostelana e confirmadas por outros cronistas da época, portanto fidedignas, e, o que é mais importante, contém a chave para uma localização mais credível, senão mesmo a única aparentemente incontestável, do presídio do infeliz monarca. Essa chave é a menção expressa a «Babia», actual comarca da montanha ocidental de Leão localizada na comunidade autónoma de Castilla y León, muito para Nordeste da fronteira de Ribacôa. Essa comarca confronta, a Sul, com a subcomarca da mesma nontanha ocidental que é Luna onde se encontra o castelo ainda hoje designado de Castillo de Luna, na localidade de Los barrios de Luna, de que se diz ter sido importante fortaleza e servido de prisão para várias figuras ilustres.
Também eu gostaria que os entusiastas da História de Alfaiates, que assim também me considero por as minhas raízes serem ribacudanas, pudessem contar com esse episódio tangível da História peninsular, mas afinal, tal como a Iara começou por admitir, trata-se mesmo de uma lenda com um fundo de verdade… Paciência!!!
Retomando a questão em relação à qual gostaria de ser esclarecido: Porquê o abandono de «Castillo de la Luna» e a (re)adopção de Alfaiates, topónimo que passou a usar-se desde 1296 e até aos nossos dias?
Teria sido «Castillo de la Luna», um topónimo imposto pela soberania leonesa que a população autóctone simplesmente repudiou, guardando e renovando a tradicional designação árabe assim que o território foi subtraído àquela soberania?
Fica lançada a questão, e reservada a minha gratidão, para quem não se importar de me proporcionar ideias sobre ela, por mais breves que sejam, ou mesmo fornecer-me indicações sobre eventuais fontes de onde possa extrair informações para esse e outros assuntos de interesse sobre a História de Alfaiates, incluindo as que atrás abordei.
Obrigado. _________________ Leonel Salvado |
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